terça-feira, 21 de agosto de 2007

esqueça o cotovelo


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Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
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Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido

Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
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Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
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Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
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Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
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Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.


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Itamar Assumpção

Foo Fighters - Dave.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

teste da sombra




Obturação, é da amarela que eu ponho.
Pimenta e cravo, mastigo à boca nua.
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Amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons pra uma palavra só.
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Espírito, se for de Deus, eu adoro.
Se for de homem, eu testo.
Fico gostando ou perdôo.
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Procuro sol, porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.


Adélia Prado






quinta-feira, 16 de agosto de 2007

... e a terra se abre.




Tem gente que tem o costume de vazar pelos cantos.
No começo vaza calada, aos poucos, aos pingos.
Mas se pega gosto principia o derrame.
Escorre quando fala, escorre quando anda.
Não tem mais braço nem cabelo que segure.

Parece que vicia em ficar transbordada.


Mas tem outra que quando transborda é pra dentro.
E corre o risco de ficar represada.
E represa você sabe, se aumenta muito arrebenta.
Mas se a pessoa ensaia um jeito de derramar pra fora.
Aí vai fazendo leito, vai abrindo seu caminho na terra.
E a terra parece que se abre pra ela passar.

As vezes não.




Viviane Mosé
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Foto Annie Leibovitz

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

CEP 20.000


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na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa


as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho

na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.


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Chacal.
Foto Kirsten_Marie Antoniette

nirvana


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"Oh! Sejamos pornográficos
(docemente pornográficos)”
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Drummond
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Desenho Vânia Mignone.Brasil.

poema do básico


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quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência

vou largar da vida louca e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades de virar
um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência.


Paulo Leminski
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Foto:Paul Poiret. Desfile NY

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Suor


Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas
buscando aquele outro decantado.
Surdo à minha humana ladradura
visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
tomas-me o corpo e que descanso me dás
depois das lidas.

Extasiada, fodo contigo.
Ao invés de ganir
diante do Nada.


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Hilda Hilst

Foto. Pearl Jam.